O (des)acordo ortográfico — até quando?

A primeira iniciativa de normalização e simplificação da escrita da língua portuguesa foi a Reforma Ortográfica de 1911. Logo ali se verificou alguma resistência em Portugal, mas principalmente no Brasil. Alexandre Fontes escrevia em 1910, nas vésperas da reforma ortográfica:
Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase. Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto (…) Affligimo-nos extraordinariamente, quando pensamos que haveriamos de ser obrigados a escrever assim!

E Fernando Pessoa dizia:
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Aviso anterior a 1911 na parede da Igreja do Carmo, no Porto.

Depois da cisão provocada pela Reforma Ortográfica de 1911, a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa assinaram um acordo com o objectivo de reunificar a ortografia da Língua Portuguesa, em 1931. Segundo os termos do acordo, o Brasil adoptaria a ortografia então vigente em Portugal, com alterações propostas pela Academia Brasileira de Letras. No entanto, as alterações não foram integralmente aceites pela Academia de Ciências de Lisboa e o acordo acabou por não ser posto em prática.

Em 1940 a Academia das Ciências de Lisboa publicava o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e em 1943 a Academia Brasileira de Letras publicava o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, continuando a haver divergências entre as grafias utilizadas nos dois países.

Em 1944 e 1945 decorreram em Lisboa uma série de reuniões cujo objectivo era a efectiva unificação ortográfica da língua portuguesa. Desta conferência resultou o chamado Acordo Ortográfico de 1945, que, entre muitas peripécias, acabou por não ser aplicado no Brasil, país onde se consolidou o sistema ortográfico de 1943, mas tornou-se lei em Portugal e em todas as colónias sob o seu controlo: Angola, Cabo Verde, Guiné, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Estado da Índia e Timor.

Entre 1971 e 1986 foram sendo feitas alterações ao acordo, apesar de algumas delas nunca chegarem a ser implementadas. Mas, de uma nova reunião em Lisboa, em 1990, resulta um novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa, previsto para entrar em vigor em 1 de Janeiro de 1994. Seria este o chamado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, actualmente em vigor em Portugal. O acordo foi assinado por representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em 16 de Dezembro de 1990. Mais uma vez após anos de polémica, em 2008 a Assembleia da República Portuguesa ratificou o acordo ortográfico de 1990. Mas para que o acordo entrasse em vigor na sua plenitude teria que ser ratificado por todos os países signatários, o que não aconteceu. Há menos de duas semanas, no dia 3 de Setembro, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Brasil teve a primeira discussão, não para a debater a ratificação do acordo, mas a sua revogação.

Países onde o português é a língua oficial.

Enquanto que a ideia original do acordo era unificar e simplificar a Língua Portuguesa, o efeito foi precisamente o contrário. E a realidade mostra-o claramente. Apesar de ter passado a ser obrigatório usar o novo acordo ortográfico em Portugal a partir de 13 de maio de 2015, a verdade é que não é isso que se verifica. Temos, portanto, as seguintes situações em Portugal:
— O Governo, as escolas e alguns órgão de comunicação social usam totalmente o acordo ortográfico;
— Outros órgãos de comunicação social usam o acordo ortográfico, mas vários dos seus colunistas não o usam, e vice-versa;
— Outros ainda usam o acordo ortográfico, excepto quando acham que não faz sentido.

E se a realidade é que ninguém pediu que houvesse qualquer acordo ortográfico, os políticos acharam que sim. Mas pior do que isso, depois de se ter verificado e muitas vezes provado que o acordo tinha falhas, os defensores do acordo e também alguns políticos continuam a não estar dispostos a aceitar as propostas para a sua melhoria.

Em Julho deste ano, o Grupo de Trabalho para Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico apresentou na Comissão de Cultural da Assembleia da República uma proposta de alteração do acrodo, mas que, como temos visto ultimamente, apesar de toda a gente ter percebido que seria benéfico, os seus defensores, criadores e o Governo (e o PS em particular) continuam a achar que não.

Assim, temos actualmente na Língua Portuguesa um sem número de pérolas linguísticas, como:
— “Chuva para Lisboa” em vez de “Chuva pára Lisboa” (o leitor é que tem que saber ler pelo contexto);
— ‘Os espetadores’ em vez de ‘os espectadores’;
— Dizemos o Egito mas os seus habitantes são os egípcios;
— Os produtos lácteos, mas os laticínios;
— ‘Cor-de-rosa’, mas ‘cor de laranja’ (com uma explicação mirabolante);
etc., etc. …

Chegamos até a ter situações caricatas com esta:

Jornal i de 9 de Julho de 2019.

Mas, se enquanto que nos exemplos anteriores podemos discordar mas ainda assim a nova grafia pode ser válida, há outros em que a alteração gera palavras que são, simplesmente, erradas. Um dos melhores exemplos é a palavra “óptica” que passou a escrever-se “ótica” (apesar de as duas já existirem). Ora, o que acontece é que as duas palavras significam coisas completamente diferentes. Diz o dicionário:
Óptica: parte da Física que estuda a luz ou que é relativo ao olho ou à visão;
Ótica: relativo ao ouvido ou à orelha.
Assim, no dia a dia, sempre que lemos a palavra “ótica” ficamos sem saber se o que estamos a ler é relativo aos olhos ou aos ouvidos. Bravo, parabéns!

Sem dúvida que é essencial que a língua evoluae não poderia ser de outra forma. No entanto, se for para “evoluir” ao sabor da política e não dos especialistas, com apoio generalizado, então mais vale ficar como está. (Des)acordo ortográfico, até quando?

2 respostas
  1. José Sousa
    José Sousa says:

    As línguas, como tudo, também evoluem e devem aperfeiçoar-se e simplificarem-se, eliminando regras obsoletas e as exceções anacrónicas que persistem em manter-se.
    Resistências, como em tudo, haverá muitas.. quase sempre de quem menos percebe do assunto, além da politização, seja de um lado seja do outro, consoante os interesses e variando conforme a posição ocupada a cada momento, que em vez de ajudar só complica.
    As escolas estão a aplicar bem, os alunos ainda melhor .. e como eles simplificam ainda mais a língua nos sms e mensagens que trocam e na comunicação entre eles. Quando forem maiores e puderem opinar temos à vista um novo acordo ortográfico.
    O princípio é escrever tal como se fala – se digo Egito porque é que hei-de ser obrigado a escrever Egipto, mas se pronuncio egípcio então devo continuar a escrever egípcio.
    As palavras têm a sua explicação e significado no contexto e na frase em que se inserem, sem se recorrer a imperfeições que ainda persistem só para justificar e defender posições próprias e extremas que não facilitam nem ajudam no caminho a prosseguir.
    Só dois exemplos:
    – “Eu gosto do canto”, que significa? – há a visão do futebolista, do cantor, do arquiteto, pois o termo ‘canto’ isolado tem pelos menos 4 significados diferentes;
    – E há o ‘sinal’, também com vários significados, mas que antes se escrevia ‘signal’ – os ‘puristas’ e saudosistas deveriam assim continuar a escrever … repare-se que ainda se escreve e pronuncia signo – com ‘g’ – senão seria ‘sino’, que também serve para dar sinal (complicado, não?);
    Já agora, qual o acordo (1911, 1931, 1945 ou outro) que os anti acordo 1990 querem manter? Claro que ficariam na dúvida para escrever ‘fator’ ou ‘factor ou ‘phactor’.
    E, para confirmar o quanto complicado é a coisa, há palavras que tendo evoluído teimam em manter-se, a par do seu derivado – é a forma erudita e a forma popular – como, por exemplo, conceção (que antes do atual acordo até se escrevia concepção) e conceição.
    Para terminar, apesar da discussão interminável e diferentes opiniões sobre o tema – cada cabeça sua sentença – uma questão para reflexão:
    – qual a forma correta de pronunciar “léxico”?
    – será ‘léchico’, ‘léssico’, lécsico’, léksico’…?
    Venha um novo Acordo Ortográfico, por que ainda há muito a simplificar e melhorar.

    Responder
  2. Álvaro Almeida
    Álvaro Almeida says:

    Concordo plenamente consigo quando diz que a língua deve evoluir e é importante que assim aconteça. A minha opinião pessoal não é contra a existência do acordo ou a evolução da língua, mas sim contra os seus defensores (incluindo os políticos que são quem tem o poder de o alterar) recusarem qualquer alteração. Já toda a gente percebeu que o acordo tem falhas e pode ser melhorado. Já houve pelo menos duas comissões que apresentaram propostas de melhoria e que foram completamente ignoradas. Portanto, neste momento temos um acordo que é obrigatório mas ao mesmo tempo opcional. E na verdade a maior parte das pessoas, incluindo eu próprio, em certos casos, nem sabe se está a usar o acordo ou não. Se o objectivo era ter uma forma comum de escrever entre os vários países da CPLP isso foi uma falha completa e, se nos limitarmos apenas a Portugal, acho que ainda foi maior. Portanto, continuaremos à espera que esse acordo possa ser melhorado, porque pelos vistos a forma como escrevemos depende da vontade política…
    https://www.publico.pt/2019/09/02/politica/noticia/haver-coragem-politica-assumir-acordo-ortografico-correu-mal-1885085

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