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Porque é que a hora muda? Seria melhor se não mudasse?

Há muito que estamos habituados a adiantar ou atrasar o relógio 1 hora, em Março e em Outubro. Em Março, o relógio adianta 1 hora e passamos para o chamado horário de Verão. Em Outubro, atrasa 1 hora e entramos no horário de Inverno. Apesar de para nós ser já um hábito, há muita gente que discorda dele. Vamos então tentar perceber o que é que está por trás desta mudança e se faz ou não sentido continuar.

Porque muda a hora?

A mudança de hora conta já com mais de um século. No entanto, a ideia teve como um dos principais impulsionadores o cientista e inventor norte-americano Benjamin Franklin, em 1784. Na altura, Franklin sugeriu que a alteração da hora da Primaverna iria permitia uma poupança considerável nas velas, principal meio de iluminação na época. Apesar disso, só mais de 100 anos depois, em plena Primeira Guerra Mundial, é que a ideia voltaria a ganhar força, neste caso para poupar combustível. Foi assim que, em 1916, a Alemanha e o império Austro-Húngaro decidiram prolongar a luz do dia ao alterar a hora na Primavera, não por uma questão de poupança de combustível, mas, na verdade, para ajudar ao esforço da guerra.

Vários outros países adoptaram depois a mudança de hora, como foi o caso de Portugal, a 17 de Junho de 1916. Entretanto, na União Europeia, a mudança de hora passou a ser uniforme e regulamentada. Mas, no mundo, apenas 82 países seguem este hábito, o que mostra que a maioria mantém uma única hora durante todo o ano, nomeadamente na Ásia e em África.

Seria melhor ou pior se a hora não mudasse?

Como em muitas situações, depende do país. Hoje em dia já não se pode dizer que a mudança é feita por motivos económicos, pois já foi demonstrado que a poupança de combustível é tão pequena que não seria suficiente para o justificar. Agora, tudo tem que ver com as pessoas e com o conforto que se lhes pode dar.

Foquemo-nos então no caso particular e concreto de Portugal. Se não atrasássemos o relógio em Outubro, ou seja, se ficássemos sempre no horário de Verão, o nascimento do Sol passaria a acontecer perto ou depois das 8h entre meados de Outubro e meados de Março. Quer isto dizer que, quando as pessoas acordassem e depois se deslocassem para o trabalho, para escola, etc., ainda veriam estrelas no céu, porque ainda seria noite. Isto durante 40% do ano. Em Janeiro só ficaria de dia praticamente às 9h da manhã e anoiteceria pouco depois das 18h. Se, por outro lado, ficássemos sempre no horário de Inverno, em Junho começaria a ser dia perto das 5h da manhã e a noite só chegaria depois das 23h.

Esta e outras conclusões estão no relatório do Observatório Astronómico de Lisboa, que recomenda a manutenção da mudança de hora duas vezes por ano.

Na verdade, Portugal já fez a experiência duas vezes e nenhuma correu bem. Primeiro, entre 1967 e 1975 e, depois, entre 1992 e 1996.

Há alguma alternativa melhor?

Há, mas não implica deixar de mudar a hora. Segundo o relatório acima citado, a melhoria que poderia ser feita era “alterar para o último domingo de Setembro o fim do horário de Verão”, em vez do actual término no final de Outubro. Na verdade, “este era o regime de Hora de Verão que existia até 1995 nos países do continente europeu e mostra que sempre foi a melhor escolha, ao longo de muitas décadas, com a qual todos os povos se sentiam relativamente bem”.

Não há uma solução que agrade a todos, mas todos podemos beneficiar se ajustarmos a hora à chamada hora solar, durante todo o ano.

Mudança de hora acaba em 2021?

Em 2018 a Comissão Europeia fez uma consulta pública sobre a mudança de hora em toda a União, na qual participaram apenas cerca de 4,6 milhões de pessoas, a maioria alemães. Além dos 84% que votaram a favor do fim da mudança da hora duas vezes por ano, 76% dos participantes consideraram que essa experiência é “negativa” ou “muito negativa”.

No seguimento do inquérito online, o Parlamento Europeu votou a favor da abolição da mudança de hora com 410 votos a favor, 192 contra e 51 abstenções, já a partir de 2021. Segundo o Parlamento, caberá a cada Estado-membro decidir se quer aplicar a Hora de Verão ou a Hora de Inverno, mas os países da UE deverão todavia coordenar entre si a escolha das respectivas horas legais, de modo a salvaguardar o bom funcionamento do mercado interno, e notificar essa decisão a Bruxelas até 1 de Abril de 2020, o mais tardar, o que não veio a acontecer por haver outras prioridades óbvias.

Na altura, o primeiro-ministro, António Costa, disse não ter qualquer intenção de abolir a mudança da hora. “Acho que o bom e único critério é o critério da ciência e o que foi expresso até ao momento pela entidade competente, que é o Observatório Astronómico de Lisboa, é o entendimento que em Portugal devemos manter este regime de horário, com uma hora de Verão e uma hora de Inverno”. “Não vejo razão para que se contrarie a ciência e se faça algo de forma discricionária”, concluiu. Este foi um dos melhores exemplos de que nem sempre a política pura deve ser a única forma de governar um país. Muitas vezes a ciência já tem a resposta e devia ser ouvida mais recorrentemente. Ainda bem que, neste caso, o Governo pensa desta forma, porque, na verdade, se a hora não mudasse seria pior, para todos.

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