A Era das ‘Fake News’

As fake news ou notícias falsas, apesar terem actualmente um papel significativo no dia a dia da sociedade, há séculos que contribuem para a desinformação deliberada da população em geral ou de grupos ou indivíduos em particular. Este tipo de notícias é criado, escrito e publicado com o objectivo de enganar, criar dúvida, chamar à atenção ou gerar sentimentos de revolta e, com isso, obter ganhos financeiros ou políticos, entre outros.

The fin de siècle newspaper proprietor (cropped)

Repórteres com várias formas de “notícias falsas”, numa ilustração de 1894 por Frederick Burr Opper.

A história, pelo menos nos últimos 3000 anos, está cheia de episódios em que rumores falsos tiveram grandes consequências. Segundo consta, por volta do ano 30 a.C. o general romano Marco António terá cometido suicídio após uma campanha de desinformação iniciada por César Augusto e ter recebido a notícia, falsa, de que a mulher, Cleópatra, tinha morrido. Em 1835, o jornal The New York Sun publicou seis artigos sobre a “descoberta” de vida na Lua, usando como fonte o nome do astrónomo real John Herschel. O objectivo foi aumentar as vendas do jornal. Em 1933, Joseph Goebbels criou o Ministério do Esclarecimento Público e da Propaganda para disseminar mensagens incitadoras de ódio contra os judeus, cujo resultado é bem conhecido. Em 2016, nos Estados Unidos, as notícias falsas passaram a dominar completamente a cena política, chegando a ser tantas como as verdadeiras. Desde então, a política tem-se mantido refém destas notícias cujos efeitos foram principalmente conhecidos após o Escândalo Facebook-Cambridge Analytica.

Como é evidente, Portugal não foge à regra quando se trata de notícias falsas. Estas são partilhadas e disseminadas até à exaustão em vários grupos de Facebook, em blogs ou pelo telemóvel, muitas vezes durante anos a fio. Vamos a exemplos.

As duas imagens seguintes circulam há vários anos na Internet e foram construídas, evidentemente, por forma a criar revolta e desprezo pela classe política portuguesa.

Sem surpresa, a totalidade da informação apresentada nas duas imagens é completamente falsa e muito fácil de desmentir, como se pode verificar aqui e aqui.

Recentemente, após as manifestações pelo clima, foram partilhadas várias imagens que mostravam um rasto de lixo supostamente deixado para trás pelos manifestantes, tendo o objectivo de descredibilizar as suas iniciativas.

Mais uma vez, e já se estava mesmo a ver que também não seria verdade, confirmou-se a sua falsidade. A primeira imagem foi captada no Reino Unido, em Abril de 2019, após um encontro de entusiastas de marijuana, como pode confirmar aqui. A segunda imagem foi registada em Maio de 2018, após uma manifestação contra o furo de prospecção de petróleo em Aljezur, como pode confirmar aqui.

Outra notícia falsa, ainda mais fácil de identificar, porque como era óbvio, a probabilidade de ser verdade era, pode dizer-se, nula, foi a do famoso relógio de 21 milhões de euros de Catarina Martins (cujo preço só era batido por menos de meia dúzia de relógios existentes em todo o mundo, feitos de diamantes e outras pedras preciosas). Aqui está a história de como uma imagem falsa é partilhada até à exaustão, mesmo após o autor informar sobre a sua falsidade! Sim, não foi isso que impediu que a imagem deixasse de ser partilhada.

Antes do Facebook e da Internet em geral já eram comuns as mensagens de telemóvel com pedidos para doadores de sangue “raro” que, até podiam ser verdade no início, mas mantiveram-se a circular durante vários anos.

Também os pedidos de partilha de imagens no Facebook com mensagens do tipo “O Facebook dará 1 cêntimo para ajudar no tratamento do/da … por cada partilha”, são, obviamente, falsas.

Mas estes são apenas alguns exemplos, porque o número de imagens, notícias e até vídeos com conteúdo falso é, hoje em dia, quase incontável. E não é só um passatempo, é, efectivamente, um negócio rentável! “A audiência dos sites de desinformação permite um retorno de milhares de euros pagos pela publicidade do Google. Só no Facebook, mais de dois milhões seguem estas páginas portuguesas.“, como pode ler neste texto e neste (caso tenha acesso premium). E se há notícias falsas que “apenas” geram sentimentos de ódio ou revolta, há outras, como as relacionadas com a saúde, que podem ter efeitos ainda mais nocivos para as pessoas, como pode ler aqui.

Assim, é certo que não há um tipo de pessoa em concreto que cria notícias falsas e as divulga como se estas fossem verdadeiras. Pode ser feito só como brincadeira, mas também pode ter claras intenções económicas ou políticas, como o exemplo deste empresário que tem como admiradores dois dos maiores “incentivadores” da ‘verdade alternativa’.

Mas como é que podemos identificar se uma imagem, vídeo ou notícia é falsa? Nem sempre é fácil, mas há várias características que são comuns a quase todas elas, nomeadamente:

  • imagens mal “amanhadas”, sem grande qualidade, com texto em várias cores e, normalmente, bastante básicas no seu aspecto;
  • textos normalmente mal escritos, com preconceitos, sem citação de fontes, muitas vezes com erros ortográficos ou sem data;
  • notícias escritas em sites cheios de publicidade e nada apelativos e que não se encontram em quaisquer jornais de referência.

As notícias falsas são uma praga da era digital. Se há algumas que afectam apenas indivíduos em específico, que já estão habituados a que isso aconteça, outras há que, pelo impacto que geram num grande número de pessoas, podem ter efeitos nefastos na vida real, como aconteceu neste caso.

O mundo está ainda no início da criação de legislação contra as notícias falsas, havendo já, no entanto, várias críticas quanto à possibilidade de essa legislação ainda poder piorar o problema. Entretanto, todos podemos fazer a nossa parte, não só pesquisando um pouco mais, como consultando mais vezes os sites cujo objectivo é “desmascarar” essas notícias, como é o caso do https://combatefakenews.lusa.pt ou do https://poligrafo.sapo.pt.

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