
RÁDIO MONTE CALVÁRIO – 40 ANOS DEPOIS
A rádio que deu voz, alma e companhia a Carapito
“Olá viva, muito bom dia! Está a sintonizar a Rádio Experimental de Carapito, em FM 102 MHz!”
Quarenta anos depois, há frases que continuam vivas na memória como se tivessem sido ditas ontem.
Bastava ouvir aquelas primeiras palavras para a aldeia ganhar outra vida. As cozinhas aumentavam o volume dos rádios, os cafés silenciavam as conversas por instantes, os emigrantes sorriam de saudade e até nos campos, entre enxadas e tratores, alguém comentava: “Já começou a rádio!”
Era o dia 3 de agosto de 1986. Naquele verão nasceu algo que ninguém imaginava possível: uma rádio feita em Carapito, por gente de Carapito, para as gentes de Carapito.
Hoje parece simples. Mas naquele tempo era quase um sonho impossível. Não havia internet, telemóveis, redes sociais ou transmissões em direto. Havia apenas vontade, amizade, imaginação e um amor enorme pela nossa terra. E foi isso que fez nascer a Rádio Experimental de Carapito — mais tarde Rádio Monte Calvário, a inesquecível RMC.
Ao recordar esses dias, vêm à memória tempos irrepetíveis. Tempos de juventude, de descoberta, de portas sempre abertas, de noites mal dormidas e de uma felicidade simples que hoje custa explicar aos mais novos.
Portugal vivia então o fenómeno das “rádios livres” ou “rádios piratas”. Um pouco por todo o país surgiam pequenas emissoras locais, cheias de criatividade e irreverência. E em Carapito alguém lançou a pergunta: “Porque não uma rádio aqui?”
A ideia parecia loucura. Mas foi mesmo para a frente. Com um pequeno emissor, uma antena improvisada e uma enorme vontade de fazer diferente, lá fomos eu e o meu amigo Pedro, de comboio, levando o equipamento para Carapito. Era dia de festa do CCRC.
Nessa mesma tarde, entre cabos, experiências e improvisos, a rádio começou a emitir. Como não existia estúdio, foi em casa do Tio Ismael — meu pai — que tudo começou. E aquela casa simples transformou-se, de repente, no coração sonoro da freguesia.
Na Praça, enquanto decorriam jogos tradicionais e provas desportivas, ouviam-se pela primeira vez os sons da REC, transmitidos a partir de uma instalação montada em cima de uma camioneta. As pessoas olhavam admiradas: “Mas isto é mesmo uma rádio?” “Está a emitir daqui?” “De Carapito?!” Havia espanto nos rostos. Mas sobretudo orgulho. Porque, pela primeira vez, a nossa terra ouvia-se a si própria.
À hora do almoço passaram as primeiras entrevistas gravadas na véspera: Álvaro Caseiro, presidente do CCRC, Caseiro Marques, fundador do jornal CARUSPINUS, e Carlos Paixão, ligado ao desporto e às festas da terra.
E a partir daí aconteceu magia. Aquilo que começou quase como uma brincadeira transformou-se rapidamente numa verdadeira companhia diária. A rádio entrou nas casas, nos cafés, nas serrações, na padaria, nos automóveis e até nos campos agrícolas. Havia rádios ligados por toda a parte. As pessoas passaram a sentir que tinham voz. Que a sua aldeia existia. Que também ali aconteciam coisas importantes. A REC aproximou a freguesia como talvez nunca tivesse acontecido. Deu voz aos lavradores, aos emigrantes, aos jovens, às crianças, às coletividades, às festas, às tradições e às pequenas histórias da nossa terra. Carapito começou a ouvir-se todos os dias. E talvez tenha sido isso o mais bonito de tudo.

No dia 4 de agosto arrancou a célebre “Hora de Sesta”, programa que acabou por “matar” a sesta de muitos carapitenses naquele verão de 1986. Todas as tardes havia música, discos pedidos, conversa, humor e alegria. O estúdio era pobre em meios, mas rico em entusiasmo. Havia um emissor, dois gravadores, um microfone, uma aparelhagem adaptada como mesa de mistura e pilhas de cassetes espalhadas pela mesa. Mas havia também algo impossível de comprar: o entusiasmo de uma geração inteira. E gente… havia sempre gente.
A casa do Tio Ismael estava constantemente cheia de ouvintes, curiosos, amigos e colaboradores. Entrava-se sem bater à porta. Havia sempre vozes, gargalhadas, ideias e movimento. Hoje custa imaginar essa animação numa aldeia do interior. Na altura, no distrito da Guarda, apenas existiam a Rádio Beira Alta, de Seia, e a Antena Livre, de Gouveia. A REC foi pioneira. Fomos os terceiros. E isso dizia muito sobre a coragem e a criatividade que existiam numa pequena freguesia como Carapito.
Os programas multiplicavam-se. “Figuras da Nossa Terra”, “Momento de Amizade”, “Desporto na REC”… O saudoso Afonso Tenreiro tornou-se um dos grandes símbolos da rádio. De gravador e máquina fotográfica na mão, percorria caminhos, cafés, pedreiras, tanques, serrações e campos agrícolas à procura de histórias, vozes e momentos da nossa gente. Era um homem querido, próximo das pessoas e apaixonado pela rádio. Também o Tó-Zé Paixão andava pelas ruas e lugares da freguesia recolhendo conversas, memórias e acontecimentos. E os mais pequenos tinham igualmente o seu espaço. Ao domingo de manhã, Teresa Barranha enchia o estúdio de crianças, concursos, adivinhas, gargalhadas e música. Fernando Tenreiro oferecia prémios e guloseimas que faziam as delícias dos mais novos. A rádio mexia verdadeiramente com a aldeia. Falava-se da rádio em todo o lado.
O sucesso foi tão grande que, no final desse verão de 1986, ninguém queria deixar morrer a REC.
Organizou-se então uma grande festa na Praça, animada pelos amigos Alex Baltazar e Sérgio Bernardo, para angariar fundos destinados à compra de novos equipamentos. E ali percebeu-se que a rádio já não pertencia apenas a quem a criou. Pertencia a Carapito.
Mais tarde, no Natal de 1986, a REC regressou com o programa “Chuva de Estrelas”, enchendo as tardes frias de inverno de música e animação pela voz do trio José Caseiro, Carlos Paixão e Tó-Zé Paixão. Nessa passagem de ano, a rádio participou também na inauguração da sede do CCRC, numa festa memorável que muitos ainda hoje recordam com emoção.

E em janeiro de 1987 nascia oficialmente a Rádio Monte Calvário — a nossa RMC. Graças ao apoio do presidente do CCRC, Toninho Jeremias, foi disponibilizado o espaço para o novo estúdio. Foi um amigo da rádio desde a primeira hora, acreditando sempre naquele sonho improvável. Com melhores equipamentos, novo emissor e sobretudo com o empenho de muitos jovens da freguesia, começaram as emissões regulares da “rádio mais no meio do campo”. E aqueles 92.5 MHz passaram a fazer parte da vida das pessoas.

A rádio animava tardes inteiras, aproximava emigrantes das suas raízes, divulgava notícias da terra e criava um sentimento de união extraordinário. Hoje talvez seja difícil explicar o que isso significava. As aldeias tinham mais gente, mais vida, mais portas abertas, mais tempo para conversar. A rádio fazia companhia. Era o som da terra. Era a voz dos vizinhos. Era o sentimento de pertença. E talvez por isso se sinta hoje um silêncio diferente.
As aldeias perderam movimento, perderam juventude e perderam muitos dos espaços de encontro que davam vida à comunidade. A rádio ajudava a combater a solidão sem ninguém dar por isso. Ligava pessoas. Criava amizades. Criava memória.
A RMC levou também o nome de Carapito muito para além da nossa região através do programa “Feira da Música”, vindo semanalmente de Lisboa e transmitido em mais de 150 rádios locais. O nome de Carapito começava a ouvir-se em muitos pontos do país. Chegavam cartas, mensagens, cumprimentos e referências ao jornal CARUSPINUS, às tradições e à vida da nossa terra.

Foram anos magníficos. Mas no final de 1988 tudo mudou. A nova Lei da Rádio obrigava ao encerramento das rádios livres até à meia-noite de 24 de dezembro. A RMC despediu-se como viveu: em festa. Houve uma emissão especial contínua, um grande convívio no Calvário e fogo de artifício oferecido pelos ouvintes.
No dia de Natal realizou-se ainda a derradeira festa da rádio, no armazém do Álvaro Caseiro, com centenas de amigos presentes. Todos sorriam. Mas todos sabiam que uma época estava a terminar.
Quarenta anos depois permanece a pergunta: teria sido possível continuar? Talvez fosse muito difícil. Faltavam meios financeiros, equipamentos exigidos pela nova legislação e recursos humanos para garantir a legalização da rádio. Muitas rádios locais acabariam igualmente por desaparecer. Mas há uma certeza que o tempo nunca apagará: Valeu a pena. E valeu muito.
A Rádio Monte Calvário marcou uma geração inteira e deixou uma memória inesquecível em Carapito. Foi muito mais do que uma rádio. Foi um ponto de encontro. Uma escola de amizade. Uma janela aberta para o mundo. Uma companhia diária. Uma alma coletiva. E hoje, quando a tecnologia permite transmitir para todo o mundo através da internet, talvez seja tempo de voltar a sonhar. Quem sabe se um dia não voltaremos a ouvir: “Olá viva, muito bom dia! Está a sintonizar a Rádio Monte Calvário…” E nesse instante, por alguns segundos, talvez Carapito volte a sentir o mesmo coração a bater. Porque certas vozes nunca se apagam.
Coimbra, 3 de agosto de 2026, José Francisco Caseiro
De seguida, pode ouvir os CDs dos 20 Anos da REC/RMC, lançados em 2006.
REC/RMC — CD1
REC/RMC — CD2
