Estudo PAN Europa: maçãs e pêras portuguesas estão entre as frutas com mais pesticidas

De acordo com o estudo divulgado pela Pesticide Action Network (PAN) Europa, em 85% das pêras e em 58% das maçãs portuguesas testadas foi encontrada contaminação por pesticidas perigosos.

Photo credit: Apple and Pear Australia Ltd on VisualHunt.com

Segundo o documento divulgado em Maio pela Pesticide Action Network (PAN) Europa, as maçãs e pêras portuguesas estão no segundo lugar do ‘ranking’ da maior proporção de frutas contaminadas em 2019. Em 85% das pêras e em 58% das maçãs portuguesas testadas foi encontrada contaminação por pesticidas perigosos.

Olhando para os resultados ao nível da União Europeia, o estudo mostra que as taxas de contaminação tanto para maçãs como para pêras mais do que duplicaram entre 2011 e 2019. Na capa do estudo ‘Fruta Proibida’, os autores referem que houve um “aumento dramático dos pesticidas mais tóxicos em frutas e legumes vendidos na Europa, o que mostra que os governos estão a faltar às suas obrigações legais“, uma vez que estes pesticidas já “deveriam ter sido banidos na Europa por razões de saúde“.

Foram analisadas 97 170 amostras de variedades populares de fruta fresca cultivada na Europa, demonstrando um aumento de 53%, em nove anos, da frequência de amostras contaminadas com os piores tipos de pesticidas.

O estudo contradiz alegações da Comissão Europeia de que os agricultores estão a utilizar menos pesticidas que estão relacionados com cancro e outras doenças graves, uma vez que uma em cada três (29%) amostras de fruta foi contaminada em 2019.

Na Europa, metade de todas as amostras de cerejas tinham sido contaminadas com pesticidas, um terço de todas as maçãs, cerca de metade das pêras e metade dos pêssegos.

Olhando para os dados de 2011 a 2019, o estudo mostra que as frutas mais contaminadas foram as amoras (51% das amostras), seguidas dos pêssegos (45%), dos morangos (38%), das cerejas e dos alperces (35%). Neste mesmo período de análise, os países que produziram frutas mais contaminadas foram, por ordem decrescente, a Bélgica, a Irlanda, a França, a Itália e a Alemanha.

A PAN Europa também analisou vegetais, verificando que houve igualmente um aumento de contaminação entre 2011 e 2019, apesar de estes serem menos propensos a pragas e doenças. O aipo e raiz de aipo e a couve foram os legumes mais contaminados. A investigação não incluiu alimentos importados.

A indústria do setor diz que “não há alternativas aos pesticidas“, mas a PAN Europa aponta técnicas de agricultura biológica para controlar pragas e acusa os governos de adiarem a proibição de determinadas substâncias para proteger os interesses da agricultura intensiva usando produtos químicos.

Para Salomé Roynel, da PAN Europa, “os consumidores estão numa posição horrível porque são aconselhados a comer fruta fresca mas grande parte está contaminada com os resíduos dos pesticidas mais tóxicos ligados a graves impactos na saúde“. “É claro para nós que os governos não têm qualquer intenção de proibir estes pesticidas, independentemente do que diz a lei. Têm demasiado medo do lobby agrícola, que depende de produtos químicos poderosos e de um modelo agrícola obsoleto“, acrescentou ainda.

Ministra da Agricultura estranha dados do estudo sobre pesticidas

A Ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, garantiu que Portugal tem “condições de excelência” em termos de segurança alimentar, admitindo, no entanto, que o Ministério não tinha conhecimento do documento, mas garantiu que iria analisá-lo.

Este estudo tem algumas questões que nos parecem muito estranhas, como por exemplo não dizer qual é o valor de que estamos a falar e com que limite é que foi comparado“, disse a Ministra.

Quando eu digo que não estamos a cumprir um parâmetro, eu tenho de dizer com o que é que estou a comparar, que é para depois eu poder ter um referencial. E, portanto, é com base nisto que temos de ter efetivamente uma comparação credível, para ter uma informação que seja também ela credível“, prosseguiu.

Portanto, estamos aqui perante uma mensagem que me parece inclusivamente alarmista. O que vos posso dizer hoje é que, de acordo com os dados que temos em Portugal e na União Europeia, nós temos condições de excelência ao nível da segurança alimentar para continuarmos a consumir aquilo que produzimos na UE e aquilo que importamos também, porque o controlo de qualidade que é feito manifestamente é o controlo necessário para garantir que aquilo que comemos cumpre os requisitos para a nossa segurança, a nossa saúde e o nosso bem-estar“, acrescentou.

PAN Europa acusa Ministra de enganar consumidores

A PAN Europa sente que a ministra Maria do Céu Antunes tem, nos últimos dias, enganado o público sobre a ameaça dos pesticidas. As crianças portuguesas estão entre as mais ameaçadas a nível mundial, e a utilização de pesticidas em Portugal tem sido das mais elevadas da Europa, de acordo com autoridades externas“, diz a organização.

A ministra afirma que apenas os pesticidas aprovados pela União Europeia podem ser utilizados em Portugal. Isso é falso. Portugal permite (concede derrogações) aos agricultores a utilização de pesticidas altamente tóxicos que não são aprovados na União Europeia”, continuou, acrescentando que “o 1,3-dicloropropeno e a cloropicrina são exemplos” de substâncias utilizadas na agricultura altamente intensiva.

A PAN Europa também questiona por que razão a Ministra achou o relatório “muito estranho” uma vez que este se baseia em dados oficiais do Governo.

As alternativas existem, mas o Governo português não agiu. A consequência é que os resíduos estão cada vez mais presentes na fruta e nos vegetais“, diz a organização, acrescentando ainda que o Governo português não pode minimizar o “efeito cocktail” da interação de substâncias, tornando-as mais tóxicas.

Ao subestimar o risco dos pesticidas e ao não reduzir os resíduos nos alimentos, a Ministra negligencia a proteção dos consumidores e do ambiente“, concluiu.

Estados-Membros adiaram a publicação de dados sobre a utilização de pesticidas para 2028

O Parlamento Europeu e o Conselho chegaram na última quinta-feira, 2 de Junho, a um acordo provisório sobre um regulamento relativo às estatísticas sobre a produção agrícola. “Os Estados-Membros conseguiram adiar a publicação de dados de qualidade sobre a utilização de pesticidas [de 2023] para 2028, impedindo a Comissão Europeia de monitorizar adequadamente os objetivos de redução de pesticidas do Acordo Verde para 2030“, disse a PAN Europa.

Natalija Svrtan, da PAN Europa, disse que “na sua proposta de regulamento, a Comissão propôs que os Estados-Membros começassem a comunicar os seus dados de utilização de pesticidas em 2023. No entanto, muitos Estados-Membros — Alemanha, Áustria, Dinamarcas, Eslovénia, Espanha, Hungria, Irlanda, Países Baixos, Polónia e República Checa opõem-se a mudanças fundamentais que tornariam a nossa agricultura mais sustentável. Dão-nos aqui mais um exemplo da sua má vontade de maior transparência na utilização de pesticidas“.

A Pesticide Action Network (PAN) foi fundada em 1982 e é uma rede de mais de 600 organizações não governamentais, instituições e pessoas de mais de 60 países que procura minimizar os efeitos negativos dos pesticidas perigosos e substituí-los por alternativas ecologicamente corretas e socialmente justas. A PAN Europa foi criado em 1987 e reúne 38 organizações de consumidores, de saúde pública e ambientais, entre outras.

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