A contribuição para a construção do Portugal democrático e a revitalização e sustentabilidade da imprensa local e regional estiveram em debate em Braga a 15 e 16 de março.

Nos dias 15 e 16 de março, Braga tornou-se o epicentro do debate sobre o futuro da informação de proximidade, ao acolher o Encontro Nacional de Imprensa Local e Regional, organizado pela Associação Nacional de Imprensa Regional (ANIR).
Mais de duas centenas de representantes da imprensa regional e local, vindos de todos os distritos de Portugal Continental e da Região Autónoma dos Açores, reuniram-se para confrontar os desafios que se colocam ao setor e procurar caminhos para a sua revitalização, conscientes do seu papel crucial na construção e consolidação da democracia.
O evento sublinhou a grande importância destes órgãos de comunicação social no serviço público de informar, de dar voz às comunidades locais e de garantir o direito fundamental dos cidadãos à informação. Num momento simbólico de reconhecimento, mas de grande significado para os “visados”, a Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril e a ANIR distinguiram os vários órgãos de comunicação social presentes pelo seu contributo histórico e atual para o Portugal democrático.
No âmbito destas distinções, o jornal CARUSPINUS também foi reconhecido pela sua dedicação exemplar ao longo de 46 anos como pilar da informação de proximidade, um testemunho do compromisso inabalável com os valores democráticos e com a comunidade que serve.

Mas o encontro não foi somente uma cerimónia de reconhecimento, tendo-se também constituído como um fórum de debate onde vozes experientes do setor, representantes políticos e especialistas convergiram para analisar os desafios prementes e as oportunidades que se apresentam à imprensa regional e local. Num momento de profunda reflexão sobre o papel crucial da informação na sociedade democrática e sobre a sustentabilidade dos modelos de negócio, o evento proporcionou um espaço essencial para a troca de ideias e a busca de soluções inovadoras. As diversas intervenções que marcaram os dois dias do encontro ofereceram valiosas perspetivas sobre o passado, o presente e o futuro da comunicação social de proximidade em Portugal.
O encontro, durante o qual o presidente da Direção da ANIR, Eduardo Costa, fez questão de sublinhar constantemente a importância da imprensa local e regional para a democracia, contou com um leque diversificado de perspetivas e intervenções. O Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, começou por lançar para debate medidas concretas de apoio, estimulando a discussão sobre o alcance e a eficácia das medidas e políticas para o setor. Contudo, a obrigatoriedade de publicação de atos autárquicos em jornais locais gerou controvérsia. A resolução da questão da publicação de fundos europeus e a reforma dos incentivos foram anunciadas como prioridade, enquanto a promessa de uma reforma nos incentivos gerou expectativa num setor preocupado com a sua própria sustentabilidade.
A disparidade no acesso a apoios, com a situação específica dos órgãos sem contabilidade organizada e a necessidade de diferenciar os incentivos entre a imprensa local e regional foram temas recorrentes. A adesão ao digital, simbolizada pela medida das assinaturas digitais, revelou-se um caminho promissor, mas devido à especificidade da imprensa regional e local, bem como ao facto de esta medida não contemplar este tipo de imprensa e ser restritiva aos mais jovens, mostra que ainda há várias arestas por limar.
O encontro abordou ainda o Plano Nacional para a Segurança dos Jornalistas e Outros Profissionais da Comunicação Social, a necessidade de regular o apoio das autarquias ao setor e a preocupante “substituição” do jornalismo local por boletins municipais. A desinformação e o papel das redes sociais e dos grandes grupos de comunicação na formação da opinião pública também foram amplamente discutidos.
A presidente do Conselho Regulador da ERC, Helena Sousa, apresentou um conjunto de dados estatísticos sobre a realidade do setor, enquanto Alberto Arons de Carvalho realçou o papel da imprensa local no combate às fake news, apesar dos desafios como o controlo editorial e a concorrência digital.
No painel “Imprensa, Revolução e Democracia”, o Professor Carlos Camponês alertou para a desestruturação do modelo de negócio da imprensa regional face à digitalização e à inteligência artificial. Durante esta intervenção, foi ainda enfatizada a importância do jornalismo para a democracia e a necessidade de criar novas formas de envolvimento comunitário. Foi também neste painel que a historiadora e Comissária Executiva para as Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, Maria Inácia Rezola, alertou para o facto de a comunicação social e a democracia serem indissociáveis e terem uma relação de dependência muito forte, enfatizando o papel da comunicação social na instauração da democracia. Adiantando que existe já um conjunto de estudos sobre imprensa muito interessante e muito importante, assumiu que são poucos os que visam a imprensa regional e local, havendo, por isso, uma necessidade de estes serem realizados.
No debate com os representantes partidários, cuja presença foi muito apreciada, a dificuldade de acesso a apoios para órgãos sem contabilidade organizada foi um ponto central. Luís Marques Mendes defendeu um futuro apoio estatal ao setor, numa intervenção forçosamente marcada pela sua candidatura à Presidência da República.

O reconhecimento da Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril, materializado nas distinções entregues no final do encontro, revestiu-se de um significado especial. Ao celebrar o contributo da imprensa regional e local para a construção do Portugal democrático ao longo das últimas cinco décadas, estas homenagens não só honraram o passado e o presente destes órgãos de comunicação social, mas sublinharam ainda a sua contínua e essencial missão de informar, esclarecer e fortalecer o tecido cívico das comunidades.
Num momento de celebração da liberdade e da informação plural, o reconhecimento serviu como um poderoso lembrete do papel indelével que a imprensa de proximidade desempenhou e continuará a desempenhar na salvaguarda dos valores democráticos.
Apesar do mosaico de realidades presentes no Encontro, desde estruturas mais robustas a projetos de menor dimensão, foi notória uma convergência na busca por aprimoramento e maior profissionalização do setor. Esta aspiração coletiva sublinhou a consciência da importância de fortalecer a qualidade e a credibilidade da imprensa regional e local, adaptando-se aos novos desafios e exigências do panorama mediático atual.
Estão de parabéns a ANIR e a Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril, não apenas pela realização do evento e pela forma exemplar como o conduziram, mas também pelas distinções e pela vontade e empenho demonstrados em continuar a lutar por uma comunicação social de proximidade mais forte e mais qualificada.
