O dia em que o homem mais rico do mundo pediu donativos para pagar baixas aos seus funcionários

Jeffrey Preston Jorgensen, também conhecido como Jeff Bezos, é o presidente executivo da famosa empresa de comércio online Amazon. Para além disso, é também o homem mais rico do mundo e o primeiro ‘centibilionário’ — o seu património pessoal ultrapassou os 100 mil milhões de dólares. Hoje já vale mais de 140 mil milhões de dólares e continua a crescer. A título de exemplo comparativo, se Jeff Bezos fosse um país teria o 56.º maior produto interno bruto (PIB), de entre 189 países, equivalente ao da Hungria e a 64% do PIB de Portugal.

Da mesma forma, é igualmente surpreendente o seu aparente desinteresse pela filantropia, o que lhe tem valido inúmeras críticas ao longo dos anos. Apesar de ser bilionário desde 1997, o registo da sua primeira doação é de 2011 e, até 2018, contam-se menos de 300 milhões em doações, nunca tendo constado da lista dos 50 maiores beneméritos americanos até então. Numa tentativa de se redimir, em 2018 lançou um fundo de 2 mil milhões de dólares para a criação de programas de educação para sem abrigo e, em Fevereiro deste ano, anunciou a criação de um fundo em favor do planeta e contra as alterações climáticas, no valor de 10 mil milhões de dólares. Apesar de tudo, de entre os cinco americanos mais ricos do mundo ele é o único que não assinou o ‘Compromisso com a Filantropia‘, criado em 2010 por Bill e Melinda Gates e Warren Buffett e no qual os signatários prometem doar mais de metade da sua riqueza durante as suas vidas ou nos seus testamentos. (Claro que também podemos perguntar se ele deveria ou não contribuir mais para a sociedade em geral, mesmo sabendo que é impossível gastar todo o dinheiro que tem, mas já lá vamos.)

Para além das críticas que lhe são feitas pela moderação na filantropia, as dos seus funcionários são muitíssimo maiores, mais graves e mais impactantes. Não foi ao acaso que, em 2014, a Confederação Internacional de Sindicatos lhe atribuiu o prémio de pior patrão do mundo, conquistando ainda um lugar entre os nomeados nos anos que se seguiram. Para a distinção contribuíram as continuadas denúncias de práticas de evasão fiscal por parte da Amazon, difíceis condições laborais ou mesmo o facto dos trabalhadores dos armazéns terem que caminhar até 24 quilómetros por dia enquanto transportam equipamentos digitais que controlam os seus movimentos. A lista de denúncias é interminável (exemplo 1, exemplo 2, exemplo 3, exemplo 4, exemplo 5, exemplo 6). Como se tudo isto não fosse suficientemente mau, uma alteração à lei dos impostos e vários incentivos fiscais fizeram com que a Amazon não pagasse qualquer imposto sobre os lucros de 2017 e 2018 — 5,6 mil milhões de dólares e 11,2 mil milhões de dólares, respectivamente. Na verdade, devido a créditos e deduções, a Amazon recebeu do Governo uma devolução de 137 milhões de dólares em 2017 e 129 milhões em 2018. Em 2019 pagou 162 milhões de dólares em impostos, sobre o lucro de 13,9 mil milhões de dólares, ou 1,2% do total, quando a taxa normal é de 21%. Sim, é genial.

Mas a melhor ainda estava para vir e a Amazon não fez a coisa por menos, mantendo-se firme no campo do ridículo, ao criar o Amazon Relief Fund, da forma que o criou. A iniciativa consiste na criação de um fundo de bolsas para uma percentagem significativa dos trabalhadores que tenham que ficar de baixa após contraírem coronavírus ou que fiquem em dificuldades financeiras decorrentes da pandemia. Para o referido fundo a Amazon contribuiu com, pasmem-se, 25 milhões de dólares, apelando essencialmente aos donativos públicos.

Depois das muitas críticas, a Amazon disse que não tinha pedido doações e que a estrutura do fundo é semelhante à de muitas outras empresas que também gerem fundos semelhantes (o que é um facto). Mas vejamos então se é ou não verdade.

Ao consultar a página do Amazon Relief Fund deparamos-nos com a seguinte mensagem:

Imagem capturada em 7 de Maio de 2020.

Ajudando Funcionários e Parceiros da Amazon
O Fundo de Assistência da Amazon foi criado com uma doação de 25 milhões de dólares por parte da Amazon com o objectivo de ajudar pessoas que enfrentam dificuldades financeiras imediatamente após um desastre natural ou dificuldades pessoais imprevistas. O fundo conta com o apoio da Amazon para este programa e não está a pedir a ninguém que contribua directamente para ele. Tendo em conta a estrutura do programa, qualquer pessoa pode contribuir, se assim o desejar.

Mas, afinal, a Amazon está ou não a pedir donativos? Neste momento, não directamente. Mas se consultarmos a página (arquivada) poucos dias depois de ser lançada vemos que o texto original era o seguinte:

Texto tal como mostrado a 19 de Março de 2020.

Donativos e Suporte
O Fundo de Assistência da Amazon foi criado para ajudar pessoas que enfrentem dificuldades financeiras imediatamente após um desastre natural ou uma dificuldade pessoal imprevista. O fundo depende principalmente de doações individuais de pessoas e apoio por parte da Amazon.com Services LLC para financiar este programa. Toda a contribuição ajuda e, quando combinada com doações de outras pessoas, pode conceder uma bolsa isenta de impostos (EUA) para ajudar uma pessoa necessitada ou que esteja a enfrentar algo inesperado.

Portanto, o objectivo do fundo passou de depender principalmente de doações individuais de pessoas e com o suporte da Amazon para depender principalmente da Amazon e com o suporte de pessoas que eventualmente estejam interessadas em contribuir. Sim, isto parece um daqueles comparativos absurdos que se usam em piadas e que depois se tornam realidade. Algo do tipo os Estados Unidos pedirem ajuda financeira ao Iémen depois de uma pandemia.

Como conclusão, pergunto: deveria Jeff Bezos destinar somas mais avultadas para as causas sociais? Imediatamente poderíamos responder que ‘não’, pois ele faz com o dinheiro dele o que ele quiser. O problema é que esse dinheiro não é ganho de forma justa e por isso a resposta seria ‘sim’. Mas, acima de tudo, o problema não está nele mas sim no sistema que permite que uma única pessoa acumule um património pessoal superior ao PIB de mais de uma centena de países do mundo, criando a possibilidade de não se pagarem impostos sobre os lucros e, principalmente, permitindo que se explorem os trabalhadores de forma descarada, com desprezo e, única e exclusivamente, com total interesse pessoal.

Este é Jeff Bezos, o homem que um dia pediu donativos para pagar as baixas dos seus funcionários e que, num acto de boa fé após as críticas, permitiu que os seus trabalhadores que tenham um horário semanal de 20 ou mais horas também possam beneficiar de baixa. Quem não estiver abrangido por estas regras terá que se candidatar ao fundo de assistência e esperar que a candidatura seja aprovada, tal como a maioria dos que trabalham para a empresa e não pertencem aos quadros de pessoal. Mas com bolsas entre os 400 e os 5000 dólares ainda é possível ajudar vários trabalhadores, principalmente tendo em conta a soma astronómica de 25 milhões de dólares com que o fundo foi constituído.

Caso queira contribuir, o botão para donativos ainda continua disponível.

Esquerda-cima: informação tal como apresentada a 19 de Março. Esquerda-baixo e direita: informação tal como apresentada a 7 de Maio.

Se quiser perceber o que é que significam 140 mil milhões de dólares numa escala comparativa pode aceder a esta página.

1 responder
  1. Sertório Fernandes
    Sertório Fernandes says:

    Já nada me surpreende , desde li um artigo relacionado com os «Deepfakes» .
    Dentro do mesmo parâmetro -um só exemplo- o Português Ronaldo !
    Apoios a instituições , dádivas, centros hospitalares etc,etc,etc.
    Temos a publicidade MEO , que milhões reverterão para o seu extracto bancário ?!…
    Esses milhões advêm de quem ?…” Do cliente” que poderia ter um menor custo na mensalidade , “do funcionário” da empresa que poderia ter um salário mais condizente das suas funções .
    Outras empresas seguem a vertente desta . Vendem mais ?!. Porventura sim , mas o modelo não será semelhante ao deste Sr Jeffrey Preston ?

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