Era uma vez… no país da comédia (II)

Em Agosto, na segunda greve dos motoristas de matérias perigosas, vimos, de forma bem clara, as possíveis artimanhas que um Governo pode usar para, na prática, retirar o direito à greve a uma classe de trabalhadores. Claro que, naquele caso, e visto que todos os portugueses estavam a ser prejudicados, a forma como a greve terminou foi, na generalidade, aplaudida e saudada.

Entretanto houve eleições e assistimos à entrada entrada de três novos partidos no Parlamento. Todos temos assistido às várias polémicas que alguns deles têm protagonizado, certamente resultado da seu desejo de afirmação. Agora, já com um novo Governo (que na prática é o mesmo) assistimos a algo verdadeiramente inédito em Portugal. Falo da última manifestação dos polícias, que teve lugar em Lisboa, na última quinta-feira.

Os desacatos nas anteriores manifestações dos polícias, em 2013, 2014 ou 2018, fizeram com que, desta vez, o Governo se pusesse em sentido e cortasse o mal pela raiz. Foi assim que decidiram vedar a Assembleia da República com blocos de cimento. Bem, num país que se diz democrático e onde fazer greve é um direito consagrado na Constituição, parece que há aqui alguma coisa que não bate certo. Por isso, temos que chamar os bois pelos nomes e dizer de forma bem clara que foi nada mais, nada menos, que uma vergonha para Portugal e para a democracia. Sim, foi ridículo. Está aqui o vídeo para que não haja dúvidas.

Qual é que foi, afinal, o objectivo de cercar a Assembleia da República? Proteger a integridade física de quem lá estava dentro, dirão… não fossem os polícias irromper pelas portas adentro e começar a bater em toda a gente.  (Talvez tenham copiado a ideia do Reino Unido, em 2003 ou em 2018. Só se esqueceram do detalhe de, nesses casos, ter sido feito para evitar potenciais ataques terroristas.)

Esta é uma daquelas situações em que nem sequer sabemos bem o que dizer. Se o objectivo foi envergonharem-nos na Europa e no Mundo, parabéns, conseguiram.

Para além desta “novidade”, foram também destaque o Movimento Zero, o gesto que fizeram os seus membros, e a participação de André Ventura na manifestação, incluindo com um discurso, efusivamente aplaudido (e depois criticado, e bem, pelos sindicatos).

Ora, como já todos percebemos, o crescimento da popularidade de André Ventura, do Chega (que ainda esta semana uma sondagem colocava este partido com o dobro dos votos obtidos nas últimas eleições, registando a maior subida) e do extremismo são uma realidade. Em teoria, o objectivo dos democratas é evitar estes fenómenos. No entanto, a realidade mostra que estão a fazer precisamente o contrário. O novo presidente da Comissão da Transparência da Assembleia da República propôs que algumas reuniões dos deputados que a integram se realizem à porta fechada; o Governo continua a mentir descaradamente na Assembleia da República, muitas vezes sobre situações facilmente rebatíveis (como a compra de material de trabalho pelos polícias); a Assembleia da República — a casa da democracia — é cercada por grades e blocos de cimento e esperam que os manifestantes assobiem p’ró lado e digam “estiveram bem, assim ficamos mais calmos”. Depois não se admirem que os extremismos seja cada vez mais normais.

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