COVID-19: epidemia, pandemia ou histeria?

O principal tema de discussão e notícias dos últimos dois meses tem sido, sem surpresa, a propagação à escala mundial do novo coronavírus, detectado na China em Dezembro de 2019. A rápida propagação no país, principalmente a partir de meados do mês de Janeiro, juntamente com as incertezas em torno do comportamento do vírus e o número crescente de infectados na Europa têm sido os principais responsáveis. Nas últimas semanas, as opiniões têm-se dividido entre o exagero e a calma, pelo menos aparentes.

De um lado estão aqueles que comparam o número de mortes pelo novo coronavírus (cerca de 3500 até agora) com os da gripe (290.000 a 650.000 por ano), os da pneumonia (2,5 milhões por ano), os do cancro (10 milhões por ano) ou os das doenças cardiovasculares (18 milhões por ano). Do outro estão os que acham que a cobertura jornalística sobre a doença, os comentários ou as opiniões sobre o tema não são mais do que alarme social, para além de um negócio que tem sido feito e que ainda virá a ser feito com a chegada das vacinas.

Uma coisa é certa, tendo em conta a longevidade do novo vírus, ainda não é possível fazer grandes comparações, muito menos com doenças que já existem há milhares de anos, como é precisamente o caso da gripe (a primeira pandemia foi documentada em 1580).

No entanto, se quisermos mesmo comparar o novo coronavírus com a gripe comum, podemos olhar para os dados de forma mais detalhada. O número reprodutivo (ou taxa de infecção) da gripe comum é de aproximadamente 1,3, o que significa que cada pessoa infectada passa a doença a 1,3 pessoas, em média. Este é o número que se usa para medir o potencial da epidemia. Quando o valor é superior a 1 a doença tem tendência a espalhar-se. Os estudos actualmente disponíveis indicam que o número reprodutivo do novo coronavírus está entre 1,5 e 4,5. Ou seja, se partirmos de 20 doentes iniciais de cada doença e assumirmos um ciclo de contágios de sete dias, após 12 semanas haverá 466 infectados pela gripe comum e mais de 30.000 pelo novo coronavírus. Quer isto dizer que, se não forem tomadas medidas especiais, o novo coronavírus infectará muito mais pessoas do que a gripe.

A prevenção e a mudança de comportamentos são factores chave para evitar que a actual epidemia se converta numa pandemia, pois é impossível tranquilizar a população num momento em que ainda não existe uma vacina ou um tratamento eficaz. É verdade que o número de mortos devido à gripe também poderia ser drasticamente reduzido se se tomassem medidas equivalentes, a diferença está na forma como olhamos para as duas doenças.

Assim, neste momento é importante ouvir os conselhos, mas os dos especialistas e os das autoridades competentes, tendo sempre em mente a importância da prevenção e, também, não acreditando em tudo o que se ouve, vê e lê.

Para mais informações pode consultar os websites da Direcção Geral de Saúde e do SNS24 em vez do Facebook!

 

Os coronavírus são um grupo de vírus conhecidos desde 1962. Em 2002, um coronavírus chamado SARS-CoV foi detectado na China, tendo gerado um surto que se espalhou por 26 países, infectou 8.437 pessoas e causou 813 mortes. Em 2012, um outro coronavírus chamado MERS-CoV foi detectado na Arábia Saudita e espalhou-se por 27 países, tendo infectado 2499 pessoas, das quais 861 acabaram por morrer. O novo coronavírus, chamado SARS-CoV-2 e que causa a doença COVID-19 (coronavirus disease 2019, em inglês), foi detectado também na China, no dia 31 de Dezembro de 2019. Nos humanos, o novo coronavírus causa, na maioria das pessoas infectadas, tosse seca, febre, dificuldades respiratórias e cansaço, tendo um período de incubação de 2 a 14 dias.
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